
Quando o vento é contrário e não nos deixa avançar na direcção certa, há que ter a cabeça liberta, o coração bem aberto e recorrer a todas as forças para navegar contra a corrente. Não é fácil, mas é absolutamente necessário.
M.Ángel S. Guerra
A minha maiêutica.
Voltámos à escola. Pois é, hoje, foi dia de voltar. Pelo caminho, armei-me em Sócrates (o bom, nada de confusões, se bem que um colega de filosofia me tenha ensinado que mesmo esse, o filósofo, não era lá grande coisa, mas de certeza terá sido melhor que o outro que nos atormenta), fui calmamente, o mais calmamente possível, vieram-me à cabeça algumas perguntas, quase existenciais, até algo filosóficas. E pensei no meu percurso e no de muitos colegas, perguntei a mim próprio, mas será que ainda temos Escola? Que Escola temos? Para onde caminho? Esta estrada terá saída? Lembrei-me dos muitos professores e alunos que literalmente já não têm sala de aula. A nossa escola, aquela onde sonhámos ENSINAR, a escola da CIÊNCIA, da CULTURA e do PROGRESSO, será que existe? A escola da cidadania e da aprendizagem democrática, onde está? A do respeito pelo outro, dos valores, da vida e da liberdade onde paira? O que é, afinal, e o que não é a escola socrática?
A Escola enquanto espaço de ensino, praticamente não existe, o que temos é um lugar de omissão, de faz de conta, um caixote de matérias desgarradas da vida, longe da vida e do verdadeiro ensino. Podemos falar em Escola Democrática, quando os “capatazes” (outros chamam-lhes fiés serventuários) correia de transmissão de Sócrates, dispõem de um poder abusivo que lhes permite assumir a autocracia persecutória? Podemos falar de Democracia em escolas onde impera o medo, onde se persegue por pensar diferente? Quem trava estes abusos, como se chegou aqui?
A escola pública portuguesa é já um negócio, a começar pelas ofensivas e abusivas campanhas de “Regresso às aulas” das grandes superfícies. Um negócio chorudo para Centros de Explicações, sobretudo ao nível do secundário. O que se prepara com a transformação dos pequenos e médios armazéns em Mega Armazéns, mais não é do que o preparar num curto, médio prazo, da entrega definitiva do que resta da educação, e digo educação, porque o ensino já morreu, aos privados. Os grandes caixotes ficarão ingovernáveis, darão prejuízos enormes e, por essa altura, só resta a qualquer um dos socranetes que nos governe: “ Em nome dos superiores interesses” da nação, em nome dos Interesses e da sobrevivência, entregar mais este mega negócio, a uma das megas empresas educativas, entretanto criadas por supremos e inspirados boys. Não, não pensem que estou a delirar, observem bem estas coisas, e, já agora, brevemente, entrarei na idade da filosofia, por isso, Como dizia, o A. Aleixo: “ não tenho vistas largas nem grande sabedoria, mas dão-me as horas amargas lições de filosofia.” Na vida, com o tempo, não se fica só mais velho! Digo eu.
E os valores, pois, caros colegas e amigos: Quais são os valores de um sucesso estatístico forjado; quais são os valores de uma avaliação do desempenho injusta, parcial e kafkiana, pensada para “cumprir”, nas palavras de José Gil: ”a racionalidade orçamental, desnortear, desanimar, dominar, humilhar, desprezar os professores, os alunos e a educação.”
- Haverá salvação?
- Isso da salvação deixo para os que acreditam no reino dos céus, por mim, penso que temos de continuar a resistir, opor à tirania a razão, lutar com lealdade, com verdade, com carácter e, antes de mais, sem medo. Sem medo, sim! Lembrem-se que o medo mata mais que a morte. Sem medo, venceremos!
Pretendia “falar” do papel dos sindicatos e dos movimentos independentes, neste ano crucial para a luta dos professores, mas, como este post já vai longo, deixo para próxima oportunidade. No meio de tantas interrogações uma certeza tenho, o Cavalo de Tróia espreita-nos e espera que nos conformemos ou adormeçamos para desfechar o golpe final. A História ensina-nos que em certos combates ou matamos ou morremos. Espero ver-vos felizes um dia. Contem comigo, não baixarei os braços!
BOM ANO!