quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Um dia na escola


Um dia na escola.
Uma espécie de diário.
Numa primeira aula do ano lectivo anterior.

           O despertador tocou, - “bolas, que bem que dormia.“ Recomeça a escola, férias, como adoro as férias! Pensei. Quem me dera fazer o que quero. Será possível, algum dia será possível? Acredito que sim, afinal, nascemos para a VIDA, para SER, nascemos para VIVER, “Nasci para Nascer”, como escreveu o Neruda, o Pablo. Nascemos para uma vida de qualidade e com sonhos a concretizar, assim o queiramos. Regresso à escola, a um lugar onde fomos felizes, onde fui feliz. Como dizia, recentemente, um amigo e colega: “O ensino, a educação perdeu o encanto, foi-se a vontade de fazer mais e melhor, hoje, cumpre-se, piamente, a expiação de um pecado que não cometemos.” Há culpados, de certeza. Não somos nós, professores e alunos, não somos nós o coração da escola. Existe em Portugal uma periferia medíocre que, no afã de copiar a Europa, vai destruindo a vida dos homens e mulheres que trabalham na escola e não só. No sonho de uma eterna juventude jurei que seria feliz onde quer que estivesse, por isso, juro, juro-vos, que voltarei a ser feliz na escola, espaço outrora de amizade e são companheirismo. Hoje, resvalou para o lodaçal da escravatura, da desconfiança, da autocracia, da bufaria e do medo proclamado e instalado. Mas, não deixarei que me roubem o futuro, não permitirei que o dinheiro de uns quantos vilãos e trapaceiros desmiolados me deixem, nos deixem, sem valores e sem atitudes.A “minha” escola não é um quartel, não é um conglomerado de caixotes para formatação de mão-de-obra dócil, escrava e sem horizontes. A “minha” escola, a nossa escola, é um espaço de transformação, não de conformação, a “minha” escola prepara para a vida num humanismo do ser em devir. Na “minha” escola há homens e mulheres com todo o direito e em toda a plenitude. Há homens com futuro, sim! Há futuro se o agarrarmos com ambas as mãos e o moldarmos e, por ele, ousarmos trepar a íngreme montanha da vida.
Uma aula que começa, “caixote 28”, barulho de comboios, linha do comboio a escassos metros, barreiras de som não há, infernal barulheira do exterior, do pseudo pátio, uma espécie de sala, numa espécie de escola. Hoje quero falar-lhes do silêncio, do seu valor e importância na aprendizagem e comunicação. Calor, muito calor, eles e eu a torrar a aguentar no estorricado caixote. Olho-os (os alunos) bem nos olhos, pergunto, quero saber mais, quero ver para lá do que vejo. Há olhos que me buscam, procuram a felicidade, demandam o futuro, espreitam-me. - Marca muitos trabalhos de casa? Não respondo logo, demoro a resposta. Que espero deles? Vejo-os. Olho-os mais uma vez, uma vez e outra. Lá fora, enorme bagunça, outro comboio. Maldito avião, digo em voz alta. Um coro, espanto, admiração, “Um avião professor?!”- Um avião, mas alguém duvida! De novo o silêncio. Continuamos. Ouve-se o som da campainha, mas o que temos que ouvir é o silêncio. Pensamentos mais pensamentos, ainda não terminei. Ninguém sai. Juro que seremos felizes, assim o quero, assim o queremos.

Setembro de 2011.

5 comentários:

  1. Caro Luís Sérgio:

    Não permitirás, não permitiremos... porque apesar do lodaçal ainda há amizade e são companheirismo na escola.

    Grande abraço e bom (??) ano letivo!

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  2. Caro Luís
    Simplesmente brilhante. Nem sabes o que quanto eu me identifiquei com este teu testemunho. Já tinha saudades...
    Grande abraço, muita força e até breve.

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  3. Querido amigo,
    Texto lindo e sentido com o qual me identifico, tenho pena de não ter a tua coragem, a mim no regresso à escola dá-me para chorar, grande é a tristeza do que vivemos. Tu vês mais longe e dás-nos alento. Não sei se sofrerás por perceberes melhor que a maioria de nós toda a trapaça e mediocridade de quem nos governa, mas não parece. Mais uma vez, Luís, muito obrigada.
    bjs
    Professora

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  4. Costuma dizer-se: "Quem fala assim não é gago." Pois eu digo: "Quem escreve assim, não lhe treme a mão!" E não lhe treme, porque a firmeza com que escreve advém-lhe de valores intemporais, raros, tão raros nos tempos que correm! Um texto escrito por um homem de elevado carácter só podia sair assim. Uma soberba inspiração!
    Um grande abraço, Luís, e o meu muito obrigado por ontem teres aparecido. O gesto ficou registado, e bem registado!

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